Endometriose: a doença que exige anos de dor para ser vista

Ciência, tecnologia e desigualdade se cruzam na jornada de milhões de mulheres em busca de um diagnóstico — e de uma vida sem dor

SPASS Mulher

8/26/202641 min read

Tudo sobre a Endometriose
Tudo sobre a Endometriose

Aline Damiani tinha o hábito de pedir desculpas pela própria dor. Na escola, faltava às aulas de educação física porque a cólica chegava "como facadas", uma sensação que ela hoje descreve como uma lâmina quente no abdômen. Levou mais de catorze anos para descobrir que aquilo tinha um nome: endometriose (ND Mais, 2026). A história dela não é rara — é, na verdade, estatisticamente comum. Milhões de mulheres ao redor do mundo convivem, em algum momento da vida reprodutiva, com uma doença que provoca dor intensa, pode comprometer a fertilidade e, com frequência, avança silenciosamente enquanto é confundida com "cólica forte", síndrome do intestino irritável ou simplesmente descartada como frescura.

A endometriose não é uma novidade da medicina — é descrita na literatura científica há mais de um século —, mas continua sendo, em pleno século XXI, uma das doenças ginecológicas mais subdiagnosticadas do planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta aproximadamente 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva em todo o mundo, o equivalente a cerca de 10% dessa população (OMS, citada por National Geographic Brasil, 2023/2024). No Brasil, o Ministério da Saúde cita uma proporção semelhante, de cerca de 10% das mulheres em idade fértil (Hospital Moinhos de Vento, citando Ministério da Saúde). A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) trabalha com uma faixa um pouco mais conservadora, de 6% a 10% das mulheres em idade reprodutiva — chegando a 50%-60% entre aquelas que já procuram atendimento por dor pélvica, e a até 50% entre mulheres com infertilidade (FEBRASGO, citada em revisão integrativa publicada pela Revista da ACM, 2023-2024).

É esse hiato — entre uma doença tão frequente e um diagnóstico que ainda demora anos para acontecer — que esta reportagem se propõe a investigar. Não como uma bula, nem como uma lista de sintomas, mas como uma tentativa de entender por que a ciência médica, mesmo avançando em diagnóstico por imagem, biomarcadores e inteligência artificial, ainda não conseguiu resolver o problema mais básico da endometriose: fazer com que as mulheres sejam ouvidas a tempo.

O que é, afinal, a endometriose

Em termos médicos, a endometriose é definida pela presença de tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste o interior do útero e que se descama todos os meses durante a menstruação — fora da cavidade uterina (OMS, citada por National Geographic Brasil, 2023/2024). Esse tecido ectópico pode se instalar nos ovários, no peritônio pélvico, nos ligamentos que sustentam o útero, na região atrás do colo uterino, no intestino, na bexiga e, em casos raros, em locais mais distantes do corpo.

O problema não é apenas a presença desse tecido fora do lugar. É o que ele provoca ao redor de si: como o endométrio uterino, esses focos respondem aos hormônios do ciclo menstrual, sangram internamente e desencadeiam uma reação inflamatória crônica. Com o tempo, essa inflamação pode formar cicatrizes, aderências e fibrose dentro da pelve — e, em alguns casos, também fora dela (OMS, citada por National Geographic Brasil, 2023/2024).

É importante frisar um ponto que especialistas repetem com insistência: a endometriose não tem uma única forma de se manifestar. Ela pode se apresentar como pequenos focos superficiais no peritônio, como cistos ovarianos cheios de um conteúdo espesso e escurecido (os chamados endometriomas) ou como nódulos que penetram profundamente nos tecidos, a mais de 5 milímetros abaixo da superfície peritoneal — a chamada endometriose profunda, capaz de atingir o intestino, a bexiga e os ureteres (National Geographic Brasil, citando OMS, 2023/2024). Uma mesma paciente pode apresentar mais de um desses subtipos simultaneamente, o que torna a doença multifocal e, por isso mesmo, difícil de resumir em uma única definição.

Também não existe uma correlação direta e simples entre a extensão anatômica das lesões e a intensidade da dor sentida pela paciente. Mulheres com doença classificada como "mínima" podem sentir dor incapacitante, enquanto outras com quadros extensos podem ter poucos sintomas — um fenômeno que intriga pesquisadores e que será explorado mais adiante nesta reportagem, quando tratarmos da ciência por trás da dor crônica.

Quando a cólica deixa de ser "normal"

Há uma frase que se repete, quase palavra por palavra, nos relatos de pacientes ao redor do mundo: "um médico já me disse que aquilo era normal". Em uma pesquisa portuguesa com 883 mulheres com endometriose — o Estudo VivEndo, conduzido pela Sociedade Portuguesa de Ginecologia e pela associação MulherEndo —, 80,4% das participantes relataram que ao menos um profissional de saúde já havia dito que suas queixas eram normais (HealthNews, 2024).

Essa normalização tem raízes culturais profundas. Por gerações, a dor menstrual intensa foi tratada como parte inevitável de "ser mulher" — algo a ser suportado, não investigado. O problema é que essa naturalização empurra o diagnóstico para muito depois do início real dos sintomas, e o atraso tem consequências: quanto mais tempo o processo inflamatório atua sem controle, maior a chance de progressão da doença e de impactos duradouros sobre a fertilidade e a qualidade de vida (National Geographic Brasil, citando OMS, 2023/2024).

Isso não significa, é importante frisar, que toda cólica menstrual seja sinal de endometriose. A cólica leve a moderada, que responde bem a analgésicos comuns e não compromete a rotina, é frequente e não indica necessariamente uma doença subjacente. O que a literatura médica recomenda observar é outro padrão: dor que piora progressivamente ao longo do tempo, que não cede com anti-inflamatórios comuns, que atrapalha atividades cotidianas, que ocorre também fora do período menstrual, ou que vem acompanhada de dor durante a relação sexual, ao evacuar ou ao urinar. Esse conjunto de sinais é o que costuma justificar uma investigação médica mais aprofundada — não o simples fato de sentir cólica.

Anos em busca de um nome para a dor

Se há um número que resume o problema estrutural da endometriose, é o tempo que uma mulher, em média, leva entre o início dos sintomas e a confirmação do diagnóstico. E aqui é preciso ter cautela: não existe um único número válido para todos os países e todos os estudos — a metodologia de cada pesquisa (retrospectiva ou prospectiva, hospitalar ou populacional) produz resultados diferentes.

Uma revisão amplamente citada, publicada em 2020 no New England Journal of Medicine, aponta um intervalo médio de 6 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico, com relatos de atrasos superiores a uma década em parte dos casos (citada pelo Hospital Oswaldo Cruz, 2026). Outros estudos, publicados na revista Human Reproduction, apontam uma média de 7 a 10 anos (citada por veículo de saúde, 2026). No Brasil, um estudo transversal conduzido em um serviço especializado do Ceará e publicado no Journal of Coloproctology (2019) encontrou um intervalo médio de 5,86 anos entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento ambulatorial especializado — sendo que 45% das pacientes esperaram cinco anos ou mais, e 20% esperaram dez anos ou mais. Já o Estudo VivEndo português (2024) apontou um tempo médio de diagnóstico de 8 anos, com cada mulher consultando, em média, três profissionais de saúde antes de obter uma resposta — 36,5% delas consultaram cinco profissionais ou mais.

Dados mais recentes obtidos pela reportagem do jornal catarinense ND Mais junto ao Ministério da Saúde brasileiro, via Lei de Acesso à Informação, apontam que o diagnóstico no país pode demorar entre 8 e 12 anos desde o início dos sintomas (ND Mais, maio de 2026). Sérgio Podgaec, presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose, afirmou à mesma reportagem que algumas pacientes passam por até cinco ginecologistas diferentes antes de receber o diagnóstico correto, e atribuiu o atraso a dois fatores centrais: a cultura que normaliza a dor menstrual intensa e a dificuldade dos serviços de saúde em reconhecer e investigar sintomas persistentes (ND Mais, 2026).

Essa variação entre estudos não deve ser lida como contradição, mas como reflexo de contextos diferentes: acesso a especialistas, grau de conscientização sobre a doença, disponibilidade de exames de imagem especializados e até o desenho metodológico de cada pesquisa influenciam o resultado. O consenso, porém, é unânime: em praticamente todo o mundo, o tempo entre o primeiro sintoma e o diagnóstico definitivo se conta em anos, não em meses.

Os sintomas — e por que eles enganam

A endometriose não tem um sintoma único e exclusivo — o que, paradoxalmente, é parte do motivo pelo qual ela é tão difícil de reconhecer. Entre as manifestações mais associadas à doença estão a dismenorreia (cólica menstrual intensa), a dor pélvica crônica, a dispareunia (dor durante ou após a relação sexual), a disquezia (dor ao evacuar), sintomas intestinais que se intensificam em determinados períodos do ciclo, dor ao urinar em alguns casos, fadiga crônica e infertilidade (FEBRASGO, Manual de Endometriose; National Geographic Brasil, 2023/2024).

O problema é que boa parte desses sintomas se sobrepõe a quadros de outras doenças bastante comuns — síndrome do intestino irritável, infecções urinárias de repetição, cistite intersticial ou mesmo dores musculoesqueléticas. Segundo a médica radiologista Deborah Monteiro, especialista em endometriose, muitas pacientes passam anos tratando um suposto intestino irritável ou infecções urinárias recorrentes que, na verdade, eram manifestações de focos de endometriose (citada por reportagem do Terra, 2026). Fadiga crônica e dor irradiando para as pernas, de forma parecida com uma dor ciática, também costumam ser negligenciadas como sinais da doença.

É essencial reforçar, mais uma vez, que a experiência clínica é heterogênea: algumas mulheres apresentam sintomas discretos ou mesmo ausentes, enquanto outras enfrentam dor incapacitante. A intensidade da dor relatada não permite, isoladamente, inferir a extensão da doença — casos de endometriose classificada como leve podem cursar com dor severa, e o inverso também é descrito na literatura.

Uma em cada dez? O que dizem os números

Falar em prevalência da endometriose exige cautela redobrada, porque a própria natureza da doença — que só é confirmada de forma definitiva por meio de exame de imagem especializado, laparoscopia ou histologia — dificulta sua contagem em estudos populacionais amplos. A maior parte das estimativas vem de estudos clínicos, não de levantamentos censitários.

A cifra mais repetida internacionalmente é a da OMS: cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo, o equivalente a 10% dessa população (OMS, 2023/2024). Uma revisão de literatura publicada no Brazilian Journal of Health Review (2024), reunindo estudos internacionais entre 2018 e 2023, aponta uma faixa de 5% a 10% entre mulheres em idade reprodutiva em geral, chegando a até 50% entre aquelas com dor pélvica e/ou problemas de fertilidade (citando Moradi et al., 2021, e Sarria-Santamera et al., 2020). A FEBRASGO trabalha com uma faixa de 6% a 10% na população geral em idade reprodutiva (FEBRASGO, citada em revisão publicada pela Revista da ACM, 2023-2024).

E no Brasil? Não existe, até o momento, um levantamento epidemiológico nacional de base populacional que meça diretamente a prevalência da endometriose — o que existe são estimativas obtidas ao aplicar as taxas internacionais à população brasileira. É assim que se chega ao número frequentemente citado de cerca de 8 milhões de mulheres brasileiras com a doença (citado, por exemplo, em reportagem do Congresso em Foco, 2025, e em outros veículos de saúde). Trata-se de uma projeção, não de uma contagem direta — uma distinção que a própria literatura científica brasileira reconhece como limitação, já que o subdiagnóstico dificulta qualquer medição precisa da prevalência real (Brazilian Journal of Health Review, 2024).

Os dados administrativos do Sistema Único de Saúde (SUS) ajudam a iluminar parte do quadro, ainda que não meçam prevalência diretamente. Segundo dados obtidos pelo jornal ND Mais junto ao Ministério da Saúde por meio da Lei de Acesso à Informação, os atendimentos ambulatoriais relacionados à endometriose no SUS saltaram de 26,7 mil em 2021 para 75,3 mil em 2025 — alta de 181,6%. No mesmo período, as internações relacionadas à doença subiram de 8,4 mil para 22,2 mil, um aumento de 162,4%. Somados os dois indicadores, os registros praticamente triplicaram em cinco anos, passando de 35,2 mil para 97,5 mil (ND Mais, maio de 2026, com dados do Ministério da Saúde). O próprio Ministério da Saúde pondera, na mesma reportagem, que esse crescimento não significa necessariamente que a doença tenha se tornado mais frequente na mesma proporção: o aumento tem caráter multifatorial, refletindo maior conscientização da população, melhoria na identificação clínica e aprimoramento dos registros pelos profissionais de saúde.

Um retrato mais antigo, mas ilustrativo da carga hospitalar da doença, vem de um levantamento no DATASUS que identificou 71.818 internações relacionadas à endometriose no Brasil entre 2009 e 2013 (citado pela Associação Nacional de Hospitais Privados — Anahp, com base em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, 2020).

Uma doença, muitos rostos: os subtipos e as classificações

Do ponto de vista médico, a endometriose costuma ser dividida em três grandes subtipos morfológicos, conforme descrito pela OMS: a endometriose peritoneal superficial, mais comum, com implantes que penetram menos de 5 milímetros no peritônio; a endometriose ovariana, caracterizada pelos endometriomas — cistos com conteúdo espesso e escurecido, frequentemente bilaterais; e a endometriose profunda (ou infiltrativa profunda), na qual as lesões penetram mais de 5 milímetros abaixo do peritônio e podem acometer o septo retovaginal, a bexiga, os ureteres e o intestino (OMS, citada por National Geographic Brasil, 2023/2024). Casos de lesões fora da pelve, embora descritos na literatura, são considerados raros.

Para além dessa classificação morfológica, a prática clínica utiliza sistemas de estadiamento para orientar o planejamento cirúrgico e o prognóstico reprodutivo. O mais difundido internacionalmente é o sistema da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM, na sigla em inglês), que atribui uma pontuação cumulativa conforme a localização, o tamanho e a profundidade das lesões, classificando a doença em quatro estágios: mínima (I), leve (II), moderada (III) e grave (IV) (Portal Afya; Origen, Clínica de Fertilização). Esse sistema, no entanto, foi originalmente pensado para prever desfechos de fertilidade, e sua correlação com a intensidade da dor é reconhecidamente limitada — daí a comunidade médica ter desenvolvido sistemas complementares.

Um deles é a classificação ENZIAN, criada para descrever com mais precisão a extensão da endometriose profunda, avaliando compartimentos específicos — como o espaço retrovaginal, os ligamentos uterossacros, a parede pélvica lateral e o reto — cada um subdividido em graus de 1 a 3 conforme a extensão do acometimento em centímetros. A classificação foi revisada em 2021 para incluir também a avaliação de subtipos peritoneais e ovarianos e a permeabilidade das tubas uterinas (Origen, Clínica de Fertilização, 2024).

O ponto central que especialistas fazem questão de reforçar é que nenhum desses sistemas, isoladamente, consegue capturar toda a complexidade da doença. Eles servem como ferramentas de comunicação entre médicos e de planejamento cirúrgico — não como um resumo definitivo da experiência de cada paciente com a endometriose.

O caminho até o diagnóstico

Por décadas, o diagnóstico definitivo de endometriose dependeu quase exclusivamente da laparoscopia — uma cirurgia minimamente invasiva que permite a visualização direta das lesões e, idealmente, sua confirmação por biópsia. Esse paradigma começou a mudar de forma explícita em 2022, quando a Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) publicou uma atualização de sua diretriz internacional sobre endometriose — um documento com 109 recomendações sobre diagnóstico, tratamento da dor e da infertilidade, manejo de recorrência da doença, casos assintomáticos, endometriose em adolescentes e em mulheres na pós-menopausa (ESHRE, 2022, publicada na Human Reproduction Open).

A mudança mais significativa dessa diretriz foi justamente relativizar o papel da laparoscopia: ela deixou de ser considerada o "padrão-ouro" obrigatório e passou a ser recomendada apenas para os casos em que os exames de imagem são negativos e a suspeita clínica persiste, ou quando um tratamento empírico (isto é, iniciado antes da confirmação por imagem) se mostra ineficaz ou inadequado (ESHRE, 2022, com comentário publicado no periódico Clinical and Experimental Reproductive Medicine, 2022). A decisão foi baseada em metanálises que mostraram boa sensibilidade e especificidade da ultrassonografia transvaginal e da ressonância magnética para o diagnóstico de endometriomas e de doença profunda, de acordo com uma revisão sistemática da Cochrane citada nesse mesmo comentário.

Isso não significa, porém, que um exame de imagem baste isoladamente. A própria ESHRE recomenda que a investigação comece pela história clínica detalhada e pelo exame físico — ainda que reconheça que a acurácia do exame físico isolado é baixa, e que um exame sem achados não descarta a doença (Medscape, resumo da diretriz ESHRE 2022). É a combinação entre sintomas relatados, exame ginecológico e, sobretudo, exames de imagem realizados com protocolo adequado que orienta a suspeita diagnóstica e, quando necessário, o encaminhamento para investigação cirúrgica.

O que o ultrassom pode — e não pode — mostrar

A ultrassonografia transvaginal é hoje considerada, pela maior parte da literatura internacional, o exame de imagem de primeira linha para investigar suspeita de endometriose — não o ultrassom pélvico de rotina, mas um exame realizado com protocolo específico (Humani, 2021; artigo publicado na Radiologia Brasileira, Scielo). Esse protocolo se baseia no Consenso Internacional de Análise da Endometriose Profunda, conhecido pela sigla em inglês IDEA (International Deep Endometriosis Analysis), que padroniza as etapas da avaliação: primeiro, uma análise suprapúbica do útero, dos anexos, da bexiga e dos rins; depois, com o transdutor transvaginal, a verificação da mobilidade uterina e ovariana e da sensibilidade local; e, por fim, a busca ativa por nódulos hipoecogênicos ou irregularidades nos compartimentos anterior e posterior da pelve (artigo publicado na Radiologia Brasileira, Scielo, citando o protocolo internacional).

Para investigar especificamente a endometriose profunda, muitos serviços utilizam uma variante do exame com preparo intestinal — dieta com restrição de resíduos, uso de laxante na véspera e, em algumas rotinas, enema retal e medicação para reduzir gases antes do exame —, o que melhora a visualização do intestino e da região retrocervical (Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva; artigo publicado na revista FT, 2024/2025).

Um ponto que a diretriz da ESHRE faz questão de destacar, e que esta reportagem reproduz com o devido cuidado: um resultado de ultrassom sem achados não deve ser interpretado, de forma automática, como exclusão da doença. Isso vale sobretudo para a endometriose peritoneal superficial, que por sua natureza mais rasa é frequentemente invisível ao ultrassom e só pode ser identificada de forma confiável por laparoscopia (fonte médica especializada, citando a literatura de classificação da doença). A qualidade do exame depende fortemente da experiência do examinador com esse protocolo específico — por isso, especialistas recomendam procurar serviços com conhecimento comprovado na técnica, e não apenas um ultrassom pélvico genérico.

A ressonância magnética na endometriose

Quando o ultrassom transvaginal não é suficiente, não está disponível com o protocolo adequado, ou quando o caso exige um planejamento cirúrgico mais detalhado, a ressonância magnética (RM) da pelve entra como método complementar. Sua principal vantagem é a alta resolução de contraste tecidual, que permite uma avaliação multiplanar mais detalhada da extensão anatômica das lesões — especialmente em casos complexos, com múltiplos compartimentos acometidos (artigo publicado na Revista de Desenvolvimento Científico, RSD Journal).

A ressonância tem papel particularmente relevante para identificar lesões escondidas entre aderências e para avaliar estruturas subperitoneais, sendo frequentemente utilizada como exame adicional em casos que exigem planejamento cirúrgico detalhado (artigo publicado na revista FT, 2024/2025). Assim como no caso do ultrassom, a literatura não recomenda a ressonância como exame obrigatório para todas as pacientes com suspeita de endometriose — sua indicação depende da complexidade do caso e da necessidade de complementar a investigação por ultrassom.

Fertilidade: nem sempre, mas às vezes

Poucos temas geram tanta ansiedade entre pacientes com endometriose quanto a fertilidade — e poucos são tão frequentemente mal compreendidos. A frase que resume a posição da medicina reprodutiva sobre o assunto é direta: ter endometriose não significa, automaticamente, ser infértil.

Ainda assim, a relação entre a doença e a dificuldade para engravidar é real e bem documentada. Estima-se que entre 30% e 50% das mulheres com infertilidade tenham endometriose — e, entre mulheres com mais de 30 anos que buscam tratamentos de reprodução assistida, uma proporção semelhante apresenta a doença como fator associado (Associação Brasileira de Reprodução Assistida — SBRA; Grupo Huntington, 2025). Os mecanismos por trás dessa associação são múltiplos: alterações anatômicas causadas por aderências, comprometimento das tubas uterinas, inflamação crônica que pode afetar a qualidade dos óvulos e a receptividade do endométrio à implantação do embrião, e possíveis efeitos sobre a função ovariana (Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto — CEFERP; SBRA).

O tratamento da infertilidade associada à endometriose não segue uma receita única — depende do estágio da doença, da idade da paciente, da reserva ovariana e do histórico reprodutivo do casal. Segundo o comitê de infertilidade da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), nos casos mais leves a cirurgia laparoscópica associada ou não à indução da ovulação e à inseminação intrauterina pode ser eficaz; já nas formas mais graves da doença, particularmente na endometriose profunda, a fertilização in vitro (FIV) tende a ser o procedimento mais indicado, muitas vezes sem necessidade de cirurgia prévia — já que não há, segundo a SBRH, evidência robusta de que a cirurgia da endometriose profunda melhore os resultados dos tratamentos de reprodução assistida quando a principal motivação para operar é a dor, não a fertilidade em si (SBRH, comitê de infertilidade).

Vale destacar que estudos brasileiros também têm buscado esclarecer essa relação: uma análise retrospectiva de ciclos de FIV realizada em uma clínica de reprodução assistida não encontrou diferença estatisticamente significativa na taxa de gravidez clínica entre pacientes com e sem diagnóstico de endometriose (estudo publicado pela Revista de Iniciação Científica da Faculdade de Medicina de Marília). Isso ilustra um ponto importante: o impacto da endometriose sobre os resultados da reprodução assistida ainda é descrito como controverso na literatura científica, variando conforme o desenho do estudo, o estágio da doença e outros fatores associados de cada paciente.

Quando a doença chega ao intestino e à bexiga

Em suas formas mais profundas, a endometriose pode acometer estruturas do trato digestivo — principalmente o retossigmoide, a porção final do intestino grosso — e, com menor frequência, o trato urinário, sobretudo a bexiga. Segundo estimativas de serviços especializados, a endometriose intestinal profunda pode estar presente em aproximadamente 15% das mulheres em idade reprodutiva com a doença e em até 30% das mulheres inférteis com endometriose (Fertilita, clínica especializada em diagnóstico por imagem) — números que devem ser lidos como estimativas de serviços clínicos, não como dado populacional consolidado.

Quando o intestino é acometido, os sintomas costumam ter um padrão cíclico — dor para evacuar, alterações do hábito intestinal e desconforto que se intensificam durante a menstruação —, o que frequentemente leva ao diagnóstico equivocado de síndrome do intestino irritável antes que a endometriose seja considerada como hipótese. Por isso, especialistas insistem na importância de equipes multidisciplinares, reunindo ginecologistas e cirurgiões colorretais, para o manejo de casos que envolvem o trato digestivo.

O comprometimento da bexiga é descrito como menos frequente, mas clinicamente relevante quando ocorre, podendo causar sintomas urinários como dor ao urinar em determinados casos. Um cenário raro, mas potencialmente grave, é o da endometriose que acomete os ureteres — os canais que conduzem a urina dos rins até a bexiga —, capaz de evoluir de forma silenciosa, sem sintomas evidentes, até comprometer a função renal (Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva). Justamente por seu caráter silencioso, esse tipo de acometimento reforça a importância de uma investigação de imagem completa em casos de suspeita de doença profunda.

Além da pelve: os casos raros

A literatura médica descreve, ainda que com frequência baixa, casos de endometriose fora da região pélvica — no diafragma, na cavidade torácica e no tecido pulmonar, entre outros sítios pouco comuns (capítulo acadêmico sobre endometriose, citando Schenken et al., 2022). São apresentações raras, e esta reportagem optou deliberadamente por não lhes dar destaque desproporcional: mencioná-las é importante para ilustrar a complexidade biológica da doença, mas atribuir a elas um peso maior do que sua real frequência distorceria o quadro geral e alimentaria um sensacionalismo que não serve às pacientes.

Por que a endometriose causa dor? A ciência por trás do sintoma

Entender por que a endometriose dói exige olhar além da simples presença física das lesões. O mecanismo central é a inflamação crônica de baixo grau: o sistema imunológico permanece em estado de ativação contínua ao redor dos focos da doença, liberando citocinas, prostaglandinas e outras moléculas sinalizadoras que irritam terminações nervosas locais (Instituto de Pesquisa e Ginecologia Oncológica — IPGO, 2026, citando literatura internacional). Pesquisas sobre a densidade de fibras nervosas nas lesões de endometriose, incluindo trabalhos publicados na revista científica Diagnóstico & Tratamento, mostram que o fator de crescimento neural (NGF, na sigla em inglês) e outras substâncias associadas à inervação estão presentes em maior quantidade nesses tecidos, o que ajuda a explicar por que mesmo lesões pequenas podem gerar dor significativa.

Mas há um segundo fenômeno, tão importante quanto o primeiro, e que a FEBRASGO descreve como central para compreender por que a dor da endometriose muitas vezes não desaparece completamente mesmo após tratamento das lesões: a sensibilização central. Trata-se de um processo pelo qual a exposição prolongada a estímulos dolorosos reconfigura o funcionamento do sistema nervoso central, tornando-o mais reativo — de forma que ele passa a amplificar sinais que, isoladamente, não seriam tão intensos (FEBRASGO, artigo técnico sobre sensibilização central em pacientes com endometriose). Esse mecanismo ajuda a explicar por que a dor pode se espalhar para além da pelve, afetando a musculatura da bexiga, do intestino e do assoalho pélvico, e por que ela pode persistir mesmo quando a doença está sob controle clínico ou cirúrgico.

A comparação usada por alguns especialistas é a de uma trilha em uma floresta: quanto mais um caminho neural de dor é percorrido, mais "marcado" ele se torna, até que o cérebro passe a responder de forma amplificada a estímulos que antes não seriam interpretados como dolorosos (médico especialista em endometriose, citado pelo ND Mais, 2026). É por isso que diretrizes internacionais, como a da ESHRE, e consensos nacionais, como o da Sociedade Brasileira de Endometriose, reforçam a importância do diagnóstico e do tratamento precoces: quanto mais cedo o ciclo de dor é interrompido, menor a chance de esse mecanismo de sensibilização se consolidar de forma persistente.

O preço no trabalho, nos estudos, na vida

O impacto da endometriose raramente se limita ao consultório médico. Ele se estende às faltas ao trabalho, à queda de produtividade, à dificuldade de concentração nos estudos, às relações afetivas e à sexualidade, ao sono e, como será detalhado na próxima seção, à saúde mental.

O primeiro grande estudo prospectivo internacional a medir esse impacto de forma sistemática foi o chamado EndoCost, publicado em 2012 e conduzido em múltiplos países. Segundo seus resultados, mulheres que sofrem com dores severas relacionadas à endometriose podem perder até 11 horas de trabalho por semana, e a queda de produtividade entre pacientes com a doença pode ser cerca de 38% maior do que entre mulheres sem o diagnóstico (citado por blog especializado em endometriose, com base no estudo original, e reproduzido de forma independente pela Associação Nacional de Hospitais Privados — Anahp, 2020, com base em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo).

Uma revisão publicada na revista científica FEMINA em 2012, reunindo artigos internacionais sobre o tema entre 1991 e 2010, já apontava que os custos indiretos associados à endometriose — perda de produtividade no trabalho, nos estudos e nas rotinas diárias — representam parcela significativa do impacto econômico da doença, ainda que a quantidade de estudos sistemáticos sobre o tema, mesmo internacionalmente, seja limitada. É importante ser transparente aqui: não existe, até o momento, uma estimativa nacional consolidada e atualizada sobre o custo econômico da endometriose no Brasil — os números disponíveis vêm majoritariamente de estudos internacionais, com metodologias e contextos de sistema de saúde distintos do brasileiro, e devem ser lidos com essa ressalva.

Quando o corpo e a mente adoecem juntos

A relação entre endometriose e saúde mental é uma das dimensões da doença que mais ganhou atenção científica nos últimos anos — e também uma das que, segundo especialistas, menos aparece de forma estruturada no cuidado oferecido às pacientes.

Um estudo brasileiro conduzido no Ambulatório de Endometriose do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), da Unicamp, e publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, avaliou a frequência de depressão em mulheres com endometriose e dor pélvica crônica. O trabalho aponta que fatores psicológicos — isolados ou associados a outras causas — podem estar presentes em até 60% dos casos de dor pélvica crônica, sendo os sintomas de depressão e ansiedade os mais comuns entre eles.

Pesquisas internacionais mais recentes reforçam essa associação com números expressivos. Um estudo publicado em 2023 no JAMA Network Open, que comparou 8,2 mil mulheres com endometriose a 194 mil mulheres sem a doença, encontrou uma chance 3,6 vezes maior de depressão, 2,6 vezes maior de ansiedade e 2,9 vezes maior de transtornos alimentares entre as pacientes com endometriose, mesmo após ajustes estatísticos para dor crônica e outras comorbidades (citado pelo ND Mais, 2026). Um estudo de 2024 publicado no Journal of Affective Disorders, com mais de 12 milhões de mulheres hospitalizadas, identificou a maior associação com ansiedade justamente entre aquelas que conviviam simultaneamente com endometriose e dor crônica: uma chance 2,7 vezes maior (citado pelo ND Mais, 2026). Os autores desses estudos são cautelosos ao afirmar que os achados não comprovam uma relação de causa única — mas reforçam que dor física, funcionamento do corpo e saúde mental precisam ser tratados de forma integrada.

A pesquisadora Lilian Donatti, psicóloga com doutorado em Ciências Médicas pela USP, conduziu um estudo que identificou que mais da metade das mulheres com endometriose apresentam algum nível de depressão — índice que sobe para 91% entre aquelas com dor severa (citado pelo ND Mais, 2026). Segundo médicos entrevistados pela mesma reportagem, a inflamação crônica associada à doença produz citocinas capazes de alterar o funcionamento de neurotransmissores ligados ao humor, como a serotonina e a dopamina — um mecanismo biológico que ajuda a explicar por que a relação entre dor física e sofrimento emocional funciona, segundo especialistas, como uma via de mão dupla: a dor alimenta o sofrimento psíquico, e o sofrimento psíquico, por sua vez, pode amplificar os circuitos neurobiológicos da dor.

Há também evidência de que intervenções psicológicas específicas podem ajudar. Em outro estudo conduzido pela mesma pesquisadora, mulheres com endometriose e dor pélvica crônica que receberam terapia cognitivo-comportamental associada ao cuidado convencional apresentaram resultados significativamente melhores do que aquelas tratadas apenas com o cuidado padrão — com maior chance de redução de sintomas depressivos, de estresse e de intensidade da dor (citado pelo ND Mais, 2026). É importante frisar, como a própria pesquisadora destaca, que esse tipo de abordagem não trata a endometriose em si, nem sugere que a dor seja "da cabeça" — mas reconhece que o sistema nervoso participa ativamente da forma como a dor crônica é percebida e sustentada ao longo do tempo.

Apesar dessa evidência crescente, a saúde mental não aparece de forma estruturada no principal documento oficial que orienta o tratamento da doença no SUS. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Endometriose, atualizado pelo Ministério da Saúde em 2025, concentra suas recomendações no controle da dor, no bloqueio hormonal e, em casos específicos, na cirurgia — sem estabelecer estratégias específicas de rastreamento de ansiedade e depressão, nem critérios claros de encaminhamento para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico (ND Mais, 2026, com base em análise do documento oficial). Procurado pela reportagem do ND Mais, o Ministério da Saúde afirmou que o SUS oferece cuidado integral às pessoas com endometriose, com a Atenção Primária como porta de entrada, podendo acionar equipes multiprofissionais, práticas integrativas complementares e o apoio do PCDT de Dor Crônica quando necessário — mas, na prática, segundo profissionais de saúde da família ouvidos pela mesma reportagem, o acesso a esse cuidado integrado ainda depende fortemente da estrutura local disponível e da sobrecarga das equipes multiprofissionais.

Tratar: não existe fórmula única

Se há um princípio que atravessa todas as diretrizes contemporâneas sobre endometriose, nacionais e internacionais, é o da individualização. Não existe um protocolo de tratamento único aplicável a todas as pacientes — a escolha depende dos sintomas predominantes, da localização e extensão da doença, da idade, do desejo reprodutivo, do histórico clínico e da resposta a tratamentos anteriores.

Um consenso recentemente publicado pela Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE) em conjunto com a FEBRASGO, reunindo as melhores evidências científicas disponíveis sobre manejo farmacológico e terapêutico da doença, propõe uma abordagem escalonada para o controle da dor: analgésicos como paracetamol e dipirona e anti-inflamatórios não esteroides como primeira linha, com uso restrito de opioides (SBE/FEBRASGO, consenso divulgado em 2026, citado pelo veículo Medicina S/A). Para o controle hormonal da doença, o mesmo consenso cita medicamentos já consolidados na prática clínica brasileira e aponta os antagonistas orais de GnRH — elagolix, linzagolix e relugolix — como alternativas emergentes, ainda não disponíveis comercialmente no país. Em adolescentes, a primeira escolha costuma recair sobre pílulas combinadas ou progestagênios isolados, reservando os análogos de GnRH para casos refratários. O documento também é explícito ao afirmar que não há evidência robusta que sustente o uso de canabidiol para a dor da endometriose, nem benefício comprovado dos implantes de gestrinona (SBE/FEBRASGO, 2026).

Entre as opções de tratamento hormonal mais utilizadas atualmente estão pílulas anticoncepcionais combinadas, o dienogeste (um progestagênio de uso contínuo específico para o manejo da endometriose) e dispositivos intrauterinos hormonais. O princípio de ação, em linhas gerais, é o mesmo: reduzir os níveis de estrogênio ou bloquear o ciclo menstrual, criando um ambiente hormonal menos favorável à atividade inflamatória dos focos de endometriose — sem, no entanto, eliminar as lesões já existentes (fontes médicas especializadas consultadas). Fisioterapia pélvica, suporte psicológico e, quando indicadas, mudanças no estilo de vida também compõem o leque de intervenções recomendadas por diretrizes contemporâneas, sempre de forma complementar, não substitutiva, ao tratamento clínico ou cirúrgico.

Quando a cirurgia entra em cena

A cirurgia — na imensa maioria dos casos, realizada por videolaparoscopia — não é uma etapa automática do tratamento da endometriose. Ela costuma ser considerada em situações específicas: dor que não responde ao tratamento clínico, obstrução intestinal ou urinária causada pela doença, endometriomas ovarianos volumosos, suspeita de comprometimento de órgãos como o apêndice, ou infertilidade em casos selecionados (ginecologista citada por reportagem do jornal Tribuna de Minas, 2024).

A complexidade do procedimento varia enormemente conforme a extensão da doença. Casos de endometriose profunda com comprometimento intestinal podem exigir ressecção de segmento do intestino com reconstrução, reimplante ureteral ou suturas na parede da bexiga — procedimentos que demandam equipes multidisciplinares experientes, reunindo ginecologistas especializados, cirurgiões colorretais e, quando necessário, urologistas (Portal Afya, sobre classificação cirúrgica da endometriose). A experiência da equipe é um fator determinante para o sucesso do procedimento e para a redução de riscos, especialmente nos casos mais complexos.

A cirurgia de excisão bem-sucedida pode reduzir significativamente os escores de dor por um período prolongado — descrito por parte da literatura em até cinco anos — além de melhorar a qualidade de vida, a função sexual e, em alguns casos, os índices de fertilidade (Instituto de Pesquisa e Ginecologia Oncológica — IPGO, 2026). Um estudo brasileiro prospectivo, publicado em 2024 e conduzido por Lavor e colaboradores, observou redução de sintomas de ansiedade e depressão seis meses após a cirurgia para endometriose profunda — resultado que, é importante destacar, veio de um desenho de estudo sem grupo controle, mas que se alinha a observações semelhantes relatadas por outros centros de pesquisa (citado pelo IPGO, 2026).

Ainda assim, a cirurgia não é garantia de solução definitiva. A remoção das lesões visíveis não desativa necessariamente os mecanismos sistêmicos já instalados, como a inflamação crônica de baixo grau ou a sensibilização do sistema nervoso central em casos de dor de longa data — o que ajuda a explicar por que parte das pacientes segue apresentando sintomas mesmo após a cirurgia, e por que a recorrência da doença é uma possibilidade real, discutida de forma consistente na literatura médica.

Existe cura?

Esta é, talvez, a pergunta mais frequente — e a mais difícil de responder de forma simples. As diretrizes médicas contemporâneas evitam o termo "cura" no sentido de eliminação definitiva e permanente da doença, e falam, em vez disso, em controle da doença e manejo dos sintomas ao longo do tempo.

Isso não é uma sentença de resignação, mas um reconhecimento honesto de como a doença se comporta: tratamentos hormonais e cirúrgicos podem reduzir drasticamente os sintomas e melhorar substancialmente a qualidade de vida — mas a possibilidade de recorrência após a cirurgia, e a necessidade de acompanhamento a longo prazo mesmo após períodos de remissão dos sintomas, fazem parte do que a comunidade médica atualmente compreende sobre a doença. É por isso que a ESHRE recomenda que mulheres com diagnóstico confirmado tenham acompanhamento contínuo, com frequência e tipo de seguimento ajustados à gravidade de cada caso, e que o suporte psicológico seja considerado parte desse acompanhamento (ESHRE, 2022).

Dito de outro modo: não existe, hoje, um tratamento único capaz de "curar" a endometriose de forma definitiva e universal — mas existe, cada vez mais, a possibilidade de controlá-la de forma eficaz, individualizada e duradoura, o que já representa uma transformação relevante na experiência de muitas pacientes.

Quanto custa conviver com a endometriose

Para além do impacto na produtividade individual já discutido, a endometriose representa um desafio econômico para os sistemas de saúde como um todo — envolvendo consultas especializadas, exames de imagem de alta complexidade, medicamentos de uso contínuo, cirurgias e, em muitos casos, tratamentos de reprodução assistida.

A literatura internacional distingue, de forma consistente, dois tipos de custo: os diretos, relacionados a consultas, exames, medicamentos e procedimentos cirúrgicos; e os indiretos, relacionados à perda de produtividade e ao absenteísmo no trabalho e nos estudos (revisão publicada na FEMINA, 2012; artigo publicado na Brazilian Journal of Interdisciplinary Health Studies). Como mencionado anteriormente, não existe, até o momento, uma estimativa nacional consolidada e atualizada sobre o custo total da endometriose para o sistema de saúde brasileiro — os estudos disponíveis, em sua maioria internacionais, sequer conseguem convergir para um valor único mesmo em contextos onde a metodologia é mais robusta, dada a variação em como cada país mede diagnóstico, tratamento e produtividade perdida.

O que existe, no caso brasileiro, são indicadores parciais que ilustram a magnitude do problema: as 71.818 internações relacionadas à doença registradas no DATASUS entre 2009 e 2013, e o salto recente nos atendimentos ambulatoriais e hospitalares do SUS entre 2021 e 2025, já mencionado nesta reportagem. Esses números, embora não constituam uma estimativa de custo em reais, indicam uma pressão crescente sobre os serviços de saúde — pública e, presumivelmente, também suplementar — relacionada ao diagnóstico e ao tratamento da endometriose.

O desafio de ser atendida: SUS, planos de saúde e a fila que não anda

O Brasil possui, desde 2016, um documento oficial específico para orientar o cuidado da endometriose dentro do SUS: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Endometriose, aprovado pela Portaria GM/MS nº 879, de 12 de julho de 2016, que também passou a incorporar medicamentos específicos por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Secretaria de Saúde do Ceará, documento oficial "Linha de Cuidado à Pessoa com Endometriose"). Esse protocolo foi atualizado pelo Ministério da Saúde em 2025 — a versão mais recente, com cerca de 60 páginas, concentra recomendações no controle da dor, no bloqueio hormonal e na indicação cirúrgica para casos específicos (ND Mais, 2026).

Na teoria, o fluxo de atendimento no SUS segue o caminho da atenção primária — porta de entrada e coordenadora do cuidado — até o encaminhamento para especialistas, exames de imagem e, quando necessário, cirurgia em serviços de referência. Na prática, porém, deputadas federais e associações de pacientes têm relatado ao Congresso Nacional desafios estruturais recorrentes: falta de especialistas, longas filas de espera para procedimentos cirúrgicos e dificuldade de acesso a medicamentos específicos para o controle da dor em casos mais graves (Câmara dos Deputados, sessão solene sobre o tema, 2024). Há, inclusive, um projeto de lei em tramitação que busca assegurar diagnóstico precoce e gratuito, tratamento médico integral e acompanhamento multiprofissional para pacientes com endometriose no SUS (Congresso em Foco, 2025).

A desigualdade de acesso é um dos pontos mais sensíveis dessa discussão. Reportagens e relatos de casos mostram que, em muitas cidades, a cirurgia de endometriose profunda pela via privada pode custar em torno de R$ 80 mil — valor que varia conforme a complexidade do caso —, levando famílias a recorrerem à via judicial para conseguir o procedimento gratuitamente pelo SUS (Tribuna de Minas, 2024, sobre um caso em Juiz de Fora). Segundo levantamentos jurídicos recentes, a endometriose profunda é descrita como uma das indicações com menor cobertura dentro do sistema público, com poucos centros realizando o procedimento de forma rotineira, concentrados majoritariamente em hospitais universitários e de alta complexidade de estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (escritório de advocacia especializado em direito à saúde, 2026).

Essa desigualdade também tem um recorte social e racial. Segundo Rosaura Rodrigues, ginecologista e integrante da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, mulheres negras, periféricas e em situação de maior vulnerabilidade enfrentam barreiras adicionais para chegar ao diagnóstico e ao tratamento — incluindo a dificuldade prática de conseguir chegar a um posto de saúde durante o horário comercial quando a rotina de trabalho não permite flexibilidade (citada pelo ND Mais, 2026). Para Rodrigues, a lacuna entre o que está escrito nas diretrizes nacionais e o que de fato chega à ponta do atendimento depende fortemente da gestão local de cada município — o que produz um cuidado desigual entre diferentes regiões do país.

No âmbito da saúde suplementar, um parecer do Conselho Regional de Medicina do Ceará (CREMEC), de 2014, documentou uma controvérsia sobre a cobertura do exame de ultrassonografia com mapeamento de endometriose por operadoras de planos de saúde — na época, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) considerava esse exame equivalente à ultrassonografia transvaginal convencional para fins de cobertura obrigatória, uma interpretação que gerou debate entre especialistas sobre se essa equivalência refletia adequadamente a complexidade técnica do exame especializado (CFM/CREMEC, parecer nº 01/2014). O episódio ilustra como questões regulatórias específicas também podem influenciar o acesso a exames considerados centrais para o diagnóstico precoce da doença.

Um novo mercado em torno da saúde da mulher

Nos últimos anos, a atenção crescente à saúde da mulher — e à endometriose em particular — tem se traduzido também em movimento econômico. É o fenômeno das chamadas "femtechs": startups voltadas especificamente para tecnologias de saúde e bem-estar feminino, um termo cunhado em 2013 pela criadora do aplicativo de fertilidade Clue (Hazeshift, 2022).

As estimativas de tamanho desse mercado variam conforme a consultoria que as produz — o que, por si só, é um sinal de que se trata de um setor ainda em consolidação, sem metodologia unificada de mensuração. A consultoria Arizton Advisory & Intelligence avaliou o mercado global de femtechs em mais de US$ 50 bilhões em 2023, projetando um crescimento anual composto (CAGR) de 13,3% até 2026 (Meio & Mensagem, 2024). Outras estimativas da mesma consultoria, em anos anteriores, projetavam o mercado global passando de US$ 40,2 bilhões em 2020 para US$ 75,1 bilhões até 2025. Segundo dados do PitchBook citados pela imprensa especializada, apenas 4% de toda a pesquisa e desenvolvimento em saúde no mundo é direcionado a problemas de saúde da mulher — uma desproporção que ajuda a contextualizar por que esse mercado é descrito, por fundadoras de startups do setor, como estando "nos primórdios" mesmo em escala global (Meio & Mensagem, 2022).

No Brasil, o setor é ainda mais incipiente. Levantamentos da plataforma de dados de inovação Distrito apontam que as femtechs brasileiras receberam cerca de US$ 14,3 milhões em investimentos desde 2017, com um salto de 560% nos aportes registrados em 2022 em relação ao ano anterior (Distrito, 2023). O número de startups do setor no país também tem crescido de forma modesta mas constante — de três femtechs fundadas em 2010, o país passou a contar, segundo diferentes levantamentos entre 2023 e 2025, entre 23 e 27 empresas voltadas à saúde da mulher, atuando em áreas como acompanhamento do ciclo menstrual, fertilidade, menopausa e diagnóstico digital (Distrito; relatório Inside Healthtech).

É importante que esta reportagem seja clara quanto a um ponto: o crescimento desse mercado não deve ser confundido com solução estrutural para os desafios de diagnóstico e acesso discutidos nas seções anteriores. Ele representa, isso sim, um sinal de que a saúde da mulher — historicamente negligenciada por décadas de pesquisa e investimento concentrados em outras áreas da medicina — começa a atrair capital e atenção também no Brasil, ainda que de forma incipiente e concentrada em poucos centros urbanos.

A inteligência artificial que tenta enxergar o que o olho não vê

Entre as fronteiras tecnológicas mais promissoras para o diagnóstico da endometriose está a aplicação de inteligência artificial à análise de imagens de ultrassom e ressonância magnética. Trata-se de um campo de pesquisa ainda em estágio inicial, mas com volume crescente de publicações científicas nos últimos anos.

Estudos publicados entre 2022 e 2026 em periódicos como Scientific Reports, Ultrasound in Medicine & Biology e o Journal of Minimally Invasive Gynecology têm testado algoritmos de aprendizado de máquina e de aprendizado profundo (deep learning) para tarefas específicas: diferenciar endometriomas ovarianos de outros tipos de cistos, auxiliar sonografistas menos experientes na identificação de endometriose infiltrativa profunda, e até funcionar como ferramenta de triagem inicial para pacientes com suspeita da doença (revisão sistemática publicada na ScienceDirect, 2025, reunindo referências de 2021 a 2025). Um exemplo é o trabalho de Bendifallah e colaboradores, publicado na revista Scientific Reports em 2022, que testou algoritmos de aprendizado de máquina como estratégia de triagem para pacientes com suspeita clínica de endometriose.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 no periódico Reproductive Health, que analisou estudos indexados até agosto de 2024 nas bases MEDLINE, PubMed e Scopus, concluiu que a inteligência artificial aplicada a imagens de ultrassom mostra resultados promissores para melhorar o diagnóstico e a predição da endometriose — mas identificou também limitações metodológicas relevantes na maior parte dos estudos avaliados, incluindo amostras pequenas, ausência de validação externa dos modelos e falta de padronização entre diferentes aparelhos e protocolos de imagem.

Outra revisão de escopo, publicada em janeiro de 2026 no periódico MDPI e conduzida seguindo o protocolo PRISMA-ScR, chegou a uma conclusão semelhante: a aplicação clínica da inteligência artificial em imagens de endometriose ainda está em estágio inicial de desenvolvimento, com estudos de prova de conceito para diagnóstico, segmentação de lesões e apoio ao planejamento cirúrgico — a maioria utilizando ultrassom e imagens de laparoscopia com arquiteturas de redes neurais convolucionais.

Um ponto de consenso entre os pesquisadores é que essas ferramentas não substituem o exame realizado por um profissional experiente. Como resume uma publicação especializada em medicina da mulher, a inteligência artificial pode analisar a imagem já capturada, mas não substitui a capacidade do examinador de obter a imagem correta durante um exame dinâmico, dependente da habilidade manual de quem o realiza (Medicina da Mulher, 2026). Sociedades médicas internacionais, como o Colégio Americano de Radiologia e a Sociedade de Radiologistas em Ultrassom, já publicaram, em 2024, critérios de adequação e documentos de consenso sobre o uso de ultrassom pélvico de rotina para investigação de endometriose — sinal de que o tema está sendo incorporado gradualmente às diretrizes formais da especialidade, ainda que sem exigir, até o momento, o uso obrigatório de ferramentas de inteligência artificial na prática clínica.

As fronteiras da pesquisa: biomarcadores e novos tratamentos

Se o diagnóstico da endometriose ainda depende, hoje, de exames de imagem especializados ou de cirurgia, uma das apostas mais promissoras da pesquisa científica atual é encontrar um caminho mais simples: um exame de sangue, saliva ou outro fluido biológico capaz de identificar a doença de forma rápida e não invasiva.

Uma revisão sistemática publicada pela Cochrane avaliou diversos biomarcadores candidatos — entre eles anticorpos antiendometriais, interleucina-6 e os marcadores tumorais CA 19-9 e CA 125 — e concluiu que, até o momento da revisão, nenhum deles reunia parâmetros suficientes para substituir os testes diagnósticos já existentes (Instituto Crispi, citando a revisão Cochrane). Essa é uma ressalva importante diante do entusiasmo que cerca alguns anúncios recentes de novos testes.

Um dos exemplos mais discutidos internacionalmente é o Endotest, desenvolvido pela empresa francesa Ziwig em parceria com pesquisadores liderados pelo professor Sofiane Bendifallah. O teste analisa microRNAs presentes na saliva — pequenas moléculas de RNA associadas a processos inflamatórios ligados à endometriose. Um estudo inicial, publicado no Journal of Clinical Medicine em 2022 e conduzido com 200 pacientes com dor pélvica crônica sugestiva de endometriose, identificou a doença com 76,5% de acurácia a partir da análise de miRNA salivar (FEBRASGO, 2022, citando o estudo original). Uma versão refinada do teste, analisando uma assinatura maior de microRNAs salivares, foi posteriormente descrita por pesquisadores franceses com sensibilidade de aproximadamente 97% e especificidade de 100%, segundo declarações do professor Philippe Descamps ao portal português da Medscape (2022) — números superiores, segundo o próprio pesquisador, aos das ferramentas de imagem atualmente disponíveis. Uma análise preliminar da eficácia desse tipo de teste foi publicada em 2023 na revista New England Journal of Medicine, e um estudo prospectivo multicêntrico de validação mais recente, batizado "Validation of a Saliva Micro-RNA Signature for Endometriosis", foi publicado no periódico NEJM Evidence (citado pelo portal de saúde TuaSaúde, maio de 2026).

É essencial contextualizar esses números: trata-se, em grande parte, de estudos patrocinados ou conduzidos em parceria com as próprias empresas que desenvolvem os testes, o que não invalida os achados, mas reforça a necessidade de validação independente e em populações mais amplas e diversas antes que esses exames se tornem parte da prática clínica rotineira — inclusive no Brasil, onde, até o momento desta reportagem, esse tipo de teste não está amplamente disponível. Outras empresas de biotecnologia, como a Hera Biotech, a Proteomics International e a NextGen Jane, também desenvolvem testes similares baseados em diferentes biomarcadores — RNA mensageiro, proteínas ou microRNA — extraídos de amostras de sangue, tecido endometrial ou sangue menstrual (MIT Technology Review Portugal, novembro de 2025).

O potencial impacto econômico de diagnósticos mais precoces também tem sido objeto de análise: em 2025, o Fórum Econômico Mundial estimou que o diagnóstico precoce e tratamentos aprimorados para lidar com a dor crônica, a infertilidade e a depressão causadas pela endometriose poderiam adicionar ao menos US$ 12 bilhões ao Produto Interno Bruto global até 2040 (Fórum Econômico Mundial, 2025, citado pela MIT Technology Review Portugal).

No campo farmacológico, além dos antagonistas orais de GnRH já mencionados (elagolix, linzagolix e relugolix), a pesquisa avança em outras frentes experimentais. Um anticorpo monoclonal chamado AMY109, que atua bloqueando a interleucina-8 — uma molécula associada ao processo inflamatório da doença —, está em fase de teste clínico de fase II no Reino Unido (Centro Avançado de Endometriose, citando dados de 2025). Também é estudado, em estágio mais preliminar, o dicloroacetato, um composto que, segundo pesquisas em andamento, teria a particularidade de tratar a endometriose sem impedir que uma gravidez ocorra durante o uso — uma característica que, se confirmada em estudos maiores, representaria uma vantagem sobre terapias hormonais supressoras da ovulação (IPGO, Guia de Endometriose). É fundamental reforçar: nenhuma dessas duas substâncias está aprovada para uso clínico rotineiro até o momento desta reportagem — ambas permanecem em fase de pesquisa experimental ou de ensaios clínicos.

Mitos e verdades sobre a endometriose

Toda cólica forte é endometriose? Não necessariamente. Cólica menstrual intensa tem múltiplas causas possíveis, e nem toda dor pélvica indica a doença. O que a literatura recomenda é investigar quando a dor é progressiva, não responde a analgésicos comuns, atrapalha a rotina ou vem acompanhada de outros sintomas como dor durante a relação sexual ou ao evacuar.

É possível ter endometriose sem sentir dor? Sim. A própria diretriz da ESHRE (2022) trata separadamente o manejo de casos de endometriose encontrados de forma incidental, sem dor ou infertilidade associadas — geralmente descobertos durante exames ou cirurgias realizados por outros motivos.

Endometriose significa infertilidade? Não de forma automática. Embora a doença esteja associada a maior dificuldade para engravidar em parte das pacientes — especialmente em casos mais avançados —, muitas mulheres com endometriose engravidam de forma espontânea ou com auxílio de tratamentos de reprodução assistida.

Gravidez cura a endometriose? Mito. Os sintomas costumam diminuir durante a gestação e a amamentação devido às alterações hormonais desses períodos — a menstruação, principal estímulo para a atividade da doença, é interrompida —, mas isso não significa que as lesões desapareçam. Após o parto e o retorno dos ciclos menstruais, os sintomas costumam retornar (fontes médicas especializadas, incluindo o ginecologista Igor Chiminacio, criador da chamada "Teoria do Polvo" para explicar a doença, 2026).

Anticoncepcional cura a doença? Também é mito. Os hormônios presentes nos anticoncepcionais reduzem a inflamação e a atividade das lesões, aliviando sintomas e podendo retardar a progressão da doença em alguns casos — mas não eliminam o tecido de endometriose já formado. O acompanhamento médico deve continuar mesmo durante o uso do medicamento.

Toda paciente precisa operar? Não. A cirurgia é reservada para situações específicas — dor refratária ao tratamento clínico, obstrução de órgãos, endometriomas volumosos ou infertilidade em casos selecionados. Muitas pacientes têm a doença controlada com tratamento clínico ao longo de anos, sem necessidade de intervenção cirúrgica.

Endometriose pode voltar após a cirurgia? Sim. A recorrência da doença após tratamento cirúrgico é uma possibilidade descrita de forma consistente na literatura médica, o que reforça a importância do acompanhamento a longo prazo mesmo após a remoção das lesões.

Ultrassom normal exclui a doença? Não necessariamente. Como já discutido nesta reportagem, a diretriz da ESHRE (2022) é explícita ao afirmar que achados negativos em exame de imagem não descartam a endometriose — sobretudo em sua forma superficial, que pode não ser visível ao ultrassom.

Endometriose é câncer? Não. É uma doença benigna. Ainda assim, estudos observam uma associação entre endometriose e um risco relativo maior de determinados subtipos de câncer de ovário — especialmente os carcinomas endometrioide e de células claras —, com o risco relativo mais elevado descrito entre mulheres com endometriose infiltrativa profunda ou endometriomas (estudo americano conduzido pela pesquisadora Karen Schliep e colaboradores, citado pela CNN Brasil, 2024). É fundamental, porém, diferenciar risco relativo de risco absoluto: uma ampla revisão internacional publicada em 2026 aponta que o risco de câncer de ovário ao longo da vida na população geral gira em torno de 1,4%, subindo para aproximadamente 1,9% entre mulheres com endometriose — o que significa que a grande maioria das pacientes jamais desenvolverá a doença (CNN Brasil, 2026). O acompanhamento médico regular, ainda assim, é recomendado especialmente para os subtipos de maior risco relativo.

A endometriose pode afetar outros órgãos? Sim, especialmente em suas formas profundas, que podem acometer intestino, bexiga e, em casos raros, outras regiões do corpo. Pesquisas recentes também descrevem a endometriose como uma condição de caráter sistêmico, cuja inflamação crônica de baixo grau pode ter efeitos que se estendem além dos focos primários da doença (IPGO, 2026).

Endometriose: o que pode mudar na próxima década?

Reunindo os fios desta reportagem — da normalização histórica da dor menstrual às promessas ainda em teste de biomarcadores salivares, passando pelos gargalos estruturais do SUS e pelo crescimento incipiente das femtechs brasileiras —, é possível esboçar, com a devida cautela científica, para onde a próxima década pode caminhar.

O primeiro eixo de transformação é diagnóstico. A mudança de paradigma iniciada pela diretriz da ESHRE em 2022 — que retirou da laparoscopia o papel de exame obrigatório e reforçou o valor de exames de imagem bem executados — já reduz, em tese, um dos principais obstáculos históricos ao diagnóstico precoce: a necessidade de um procedimento cirúrgico como pré-requisito. Se os testes de biomarcadores hoje em desenvolvimento — como o de microRNA salivar testado por pesquisadores franceses — forem validados em estudos independentes e maiores, e se tornarem acessíveis em diferentes sistemas de saúde, incluindo o brasileiro, a expectativa de especialistas é de uma redução significativa no tempo médio de diagnóstico, hoje medido em anos.

O segundo eixo é tecnológico. A inteligência artificial aplicada à leitura de exames de imagem ainda está em estágio inicial, segundo as revisões sistemáticas mais recentes consultadas nesta reportagem — mas o volume crescente de publicações científicas entre 2022 e 2026 sugere que ferramentas de apoio à decisão clínica, voltadas especialmente a auxiliar profissionais menos experientes na leitura de ultrassons especializados, podem se tornar parte rotineira da prática radiológica nos próximos anos, desde que superadas as limitações atuais de validação externa e padronização entre diferentes equipamentos.

O terceiro eixo é farmacológico e imunológico. Os antagonistas orais de GnRH, já em uso em outros países e aguardando disponibilização no Brasil, e substâncias experimentais como o anticorpo monoclonal AMY109 e o dicloroacetato indicam uma tendência de tratamentos mais direcionados aos mecanismos biológicos específicos da doença — inflamação, sinalização hormonal, resposta imunológica —, em contraste com abordagens hormonais mais generalistas usadas há décadas.

O quarto eixo, talvez o mais urgente, é estrutural e de saúde pública. Os dados reunidos nesta reportagem mostram que o crescimento nos atendimentos ambulatoriais e hospitalares por endometriose no SUS reflete, ao menos em parte, maior conscientização — mas as filas para cirurgias complexas, a concentração de centros de referência em poucos estados, a desigualdade de acesso entre mulheres negras, periféricas e de maior vulnerabilidade, e a ausência de uma estrutura formal de cuidado em saúde mental no protocolo oficial do Ministério da Saúde permanecem como desafios concretos, não hipotéticos. Nenhum avanço em biomarcadores ou inteligência artificial resolve, por si só, esses gargalos de acesso — que dependem de investimento público, formação de mais especialistas e políticas de saúde mais bem estruturadas nos diferentes níveis de atenção do SUS.

A tese que atravessa esta reportagem, e que a evidência científica reunida aqui sustenta, é a seguinte: a endometriose representa um dos grandes desafios da saúde da mulher porque combina dor, inflamação, possíveis impactos na fertilidade e consequências profundas na qualidade de vida. Apesar do avanço do conhecimento científico e das tecnologias de diagnóstico, muitas pacientes ainda enfrentam anos de sintomas até receber uma investigação adequada. A próxima fronteira da medicina pode estar, de fato, na capacidade de reconhecer a doença mais cedo e de oferecer tratamentos cada vez mais individualizados — mas essa fronteira só avançará de forma justa se vier acompanhada de políticas públicas capazes de levar esse conhecimento a todas as mulheres, não apenas àquelas com acesso a centros de referência e tecnologias de ponta.

A mudança de paradigma que especialistas descrevem — de uma doença frequentemente diagnosticada depois de anos de sintomas para uma condição identificada mais cedo, acompanhada de forma individualizada e tratada por equipes multidisciplinares — não é uma certeza garantida pelo simples avanço da ciência. É, antes, uma possibilidade real, sustentada por tendências de pesquisa consistentes, mas que dependerá tanto da inovação tecnológica quanto da vontade política de transformar diagnóstico e tratamento em direito efetivamente acessível — não apenas em promessa científica.

As informações reunidas nesta reportagem têm caráter informativo e jornalístico, baseiam-se em fontes científicas, institucionais e jornalísticas indicadas ao longo do texto, e não substituem uma consulta médica. Mulheres com suspeita de endometriose devem procurar avaliação de um profissional de ginecologia para investigação individualizada.

Principais fontes consultadas: Organização Mundial da Saúde (OMS); Ministério da Saúde do Brasil (Portaria GM/MS nº 879/2016 e atualização do PCDT de Endometriose, 2025); Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE); Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH); Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA); European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE), diretriz de 2022; New England Journal of Medicine; Human Reproduction e Human Reproduction Open; JAMA Network Open; Journal of Affective Disorders; Journal of Coloproctology; Revista da Associação Médica Brasileira; Brazilian Journal of Health Review; DATASUS; reportagem de dados do Ministério da Saúde publicada pelo jornal ND Mais (2026); Conselho Federal de Medicina/CREMEC; Câmara dos Deputados; além de estudos publicados em periódicos como Reproductive Health, MDPI, Scientific Reports e NEJM Evidence, entre outras fontes científicas e institucionais indicadas ao longo do texto.

CONTATO

Central de Atendimento (11) 93706-0802

WhatsApp: (11) 93706-0802

Horário de Atendimento Comercial

Segunda a sexta-feira, das 08h ás 18h, exceto sábados, domingos e feriados.

Endereço: Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, 1748 Conj 1710 - Cidade Monções

São Paulo/SP | CEP: 04.571-000

Email: suporte@medy.com.br

Site: https://medy.com.br

© 2026 SPASS Saúde da Mulher - Todos os direitos reservados - SiiM SAÚDE TECNOLOGIA LTDA. CNPJ: 54.384.327/0001-33

Benefícios, saúde e descontos

MEDY e SPASS oferece descontos em saúde, educação, lazer e bem-estar. Não é um plano de saúde; o cliente paga diretamente ao prestador. Consultas em com médicos especialistas em até 15 dias, sujeitas à disponibilidade. Veja os parceiros no site e acesse os benefícios para melhorar sua qualidade de vida.